O que é Enxaqueca?

A enxaqueca é uma doença neurológica crónica que se caracteriza por episódios de dor moderada a forte, pulsátil ou latejante, que geralmente começa de um só lado da cabeça. É frequentemente acompanhada de náuseas e/ou vómitos, intolerância à luz, ao ruído e aos cheiros e intensifica-se com o esforço físico/movimento, o que a torna altamente incapacitante.

As crises de enxaqueca podem apresentar-se na forma:

  • Episódica: quando a cefaleia (dor de cabeça) ocorre em menos de 15 dias por mês.
  • Crónica: quando a cefaleia ocorre em 15 ou mais dias por mês, durante mais de 3 meses, sendo que, em pelo menos 8 dias por mês, tem as características da enxaqueca.

Sintomas

Cefaleia (dor de cabeça)

Existem muitos tipos diferentes de dor de cabeça, contudo, a dor característica da enxaqueca é geralmente:

  • Pulsátil (como se o coração batesse dentro da cabeça), este latejar agrava-se com o esforço físico ou com movimentos da cabeça;
  • Unilateral (só de um lado da cabeça), apesar de se poder localizar em qualquer parte da cabeça;
  • Início gradual, isto é, começa de forma ligeira e aumenta de intensidade à medida que o tempo passa;
  • A luz, o ruido, os cheiros intensos e os movimentos tendem piorar a intensidade da dor e, por isso, os doentes procuram um local escuro e sossegado onde possam repousar ou adormecer;
  • Pode durar de 4 horas até 3 dias.

Sintomas característicos da enxaqueca
A enxaqueca não é apenas uma “má dor de cabeça”. Apesar da cefaleia (dor de cabeça) ser o sintoma clássico desta doença neurológica, esta patologia está também associada a uma série de outros sintomas que a tornam tão incapacitante para os doentes que dela sofrem. Apesar destes sintomas serem característicos da enxaqueca, nem todos os doentes que sofrem de enxaqueca apresentam todos estes sintomas, sendo os sintomas variáveis entre diferentes doentes e em cada crise.

Os principais sintomas associados à enxaqueca são:

  • Sensibilidade à luz (fotofobia);
  • Sensibilidade ao som (fonofobia);
  • Náuseas/vómitos;
  • Sensibilidade ao movimentos
  • • Outro tipo de auras : formigueiro ou dormência de um lado da face ou de uma das mãos (aura sensitiva), dificuldades em falar (aura afásica) ou mesmo paralisias passageiras dos membros, habitualmente só de um dos lados do corpo (aura motora)

Além destes sintomas, existem outros que, não sendo incluídos nos critérios de diagnostico, podem acompanhar as crises de enxaqueca:

  • Sensibilidade a cheiros fortes; Tonturas e vertigem;
  • Alterações de humor e cognitivas;
  • Retenção de fluidos;
  • Congestão nasal (podendo ser confundido com a sinusite);
  • Sintomas autonómicos (olho vermelho, lacrimejo, etc.);
  • Dor cervical;
  • Alodinia cutânea (quando um simples toque na pele pode provocar uma dor intensa)
Fases da Enxaqueca

Para além da crise de enxaqueca propriamente dita, caracterizada por todos os sintomas já descritos, existem uma série de outras alterações no organismo que podem preceder, ou suceder, a crise em horas ou mesmo dias. À medida que uma crise de enxaqueca tem início e evolui no tempo, podem identificar-se 4 ou 5 fases:

1

Fase premonitória ou pródromo

Nesta fase o doente começa a sentir alguns sintomas premonitórios da crise que podem começar horas ou um dia ou dois antes da cefaleia (dor de cabeça) propriamente dita. Estes sintomas podem incluir: Depressão; Fadiga; Dificuldade de concentração; Desejo por determinados alimentos; Alteração do apetite; Sede; Alterações de humor; Rigidez no pescoço; Aumento da sensibilidade à luz e/ou som; Bocejos constantes; Sonolência; Irritabilidade/inquietude; Diarreia/obstipação, Etc.

Embora estes sintomas prodrómicos variem muito de pessoa para pessoa, eles tendem a ser sempre os mesmos para um determinado indivíduo. Estes sintomas premonitórios tendem a ser confundidos com os fatores desencadeantes.

A identificação destes sintomas que antecedem a cefaleia (dor de cabeça) propriamente dita, podem permitir ao doente detetar o aparecimento da crise de enxaqueca mais cedo e atuar de forma a evitar que a crise evolua e agrave, quer seja através da utilização da medicação aguda ou de outras medidas como descansar, beber bastante água, comer adequadamente, evitar esforços e outros desencadeantes que agravem a crise e realizar alguns exercícios de relaxamento.

Atuar o mais cedo possível nas crises de enxaqueca, mesmo antes de aparecer a própria dor, é uma das melhores formas de evitar a evolução das crises e assim reduzir o impacto e a incapacidade das crises.

2

Aura

A aura inclui uma ampla gama de sintomas neurológicos (visuais, sensitivos, de linguagem ou motores), como por exemplo a alterações momentâneas na visão, formigueiros ou dormência em algumas zonas do corpo ou dificuldade temporária em compreender a linguagem e/ou articular palavras. Todas estas alterações são completamente reversíveis e não implicam nenhum dano neurológico ou na visão, sendo um sintoma normal na enxaqueca. Estes sintomas podem durar entre 5 a 60 minutos e geralmente ocorrem antes do início da dor de cabeça.

A maioria dos doentes tem enxaqueca sem aura, por isso não tem este sintoma/fase da enxaqueca. Apenas cerca de 15-30% dos doentes com enxaqueca têm aura.

A presença destes sintomas permitem distinguir a enxaqueca com aura e sem aura. Contudo, o mesmo doente pode ter crises de enxaqueca com aura e sem aura. Os vários tipos de aura encontram-se explicados na secção “Tipos de enxaqueca : Enxaqueca com aura”.

3

Cefaleia / Dor de cabeça

A dor de cabeça é de intensidade moderada a forte. A cefaleia é tipicamente latejante ou pulsátil e é agravada pelo movimento e atividade física de rotina. Ocorre habitualmente num dos lados da cabeça, especialmente no início da crise. No entanto, é possível sentir dor nos dois lados, ou em toda a cabeça. Durante esta fase, os doentes podem também sentir náuseas e vómitos e extrema sensibilidade à luz ou ao som, ou ambos.

4

Fase posdrómica

Esta fase final corresponde ao período de tempo desde que termina a cefaleia até o doente se sentir “normal” novamente. A maioria das crises desaparece lentamente mas, em alguns casos, também param repentinamente. Habitualmente esta fase dura menos de 12 horas, apesar de em alguns doentes poder ser mais longa.

Muitas vezes nesta fase após a cefaleia propriamente dita, o doente sente uma “ressaca” após a crise. Os sintomas podem ser semelhantes aos da primeira fase, e incluem: Sensação de cansaço ou fadiga; Sonolência; Mau estar; Dificuldade de concentração; Dores no corpo; Rigidez no pescoço; Diarreia/obstipação; Alterações de humor; Dificuldade de concentração; Alteração no apetite; Sede;

Tipos de Enxaqueca

Enxaqueca com aura

Os doentes com enxaqueca com aura apresentam sintomas neurológicos transitórios, isto é, completamente reversíveis. Os restantes sintomas são idênticos aos da enxaqueca sem aura. Existem vários tipos de aura, podendo a mesma estar associada a sintomas positivos ou negativos.

Os positivos incluem a visualização de pontos brilhantes, sensação de formigueiro e os negativos incluem a perda parcial ou completa de alguma função, por exemplo, perda de visão, ou diminuição de sensibilidade ou perda de força muscular em algum membro.

  • Aura visual: é o tipo mais comum de aura, ocorrendo em mais de 90% dos doentes com enxaqueca com aura. Manifesta-se por perda de visão de um dos lados do campo visual, turvação das imagens, perceção de pontos luminosos, de figuras geométricas ou de zigue-zagues brilhantes.
  • Aura sensitiva: É a segunda forma de aura mais frequente. Geralmente começa com uma sensação de picada ou de formigueiro na ponta dos dedos de uma mão, que se desloca lentamente ao restante membro superior, ombro e ao canto da boca e da língua.
  • Aura de linguagem: É pouco frequente. Provoca dificuldade em compreender a linguagem e/ou articular palavras e está normalmente associada a outras formas de aura.
Enxaqueca Hemiplégica

Na enxaqueca hemiplégica o doente apresenta enxaqueca com aura associada a fraqueza motora. Embora os sintomas motores durem geralmente menos de 72 horas, em alguns doentes a fraqueza motora pode persistir durante semanas. Diz-se que o doente tem enxaqueca hemiplégica familiar quando mais de um membro da família apresenta esta forma de enxaqueca. Por outro lado, quando há um só caso conhecido na família, o quadro é chamado de enxaqueca hemiplégica esporádica.

Enxaqueca Menstrual

A enxaqueca menstrual é definida como um quadro de enxaqueca que tem estreita relação temporal com a menstruação, surgindo geralmente dentro do intervalo de dois dias antes até três dias depois do início da menstruação.

As crises de enxaqueca também podem surgir noutros períodos do mês, mas pelo menos uma das crises surge no início da menstruação.

A enxaqueca menstrual pode mudar ao longo da visa reprodutiva da mulher.

Está relacionada com a queda abrupta nos níveis de estrogénio, que ocorrem um pouco antes da menstruação.

Durante a gravidez ou a menopausa, pode melhorar ou até mesmo desaparecer. Os tratamentos hormonais (pílulas contracetivas / substituição hormonal) podem alterar o padrão das crises de enxaqueca menstrual, geralmente agravando-a.

As mulheres que sofrem de enxaqueca menstrual poderão ter:

  • Apenas enxaqueca menstrual: crises de enxaqueca, com ou sem aura, que ocorrem durante o dia 1 ± 2 dias da menstruação, em pelo menos 2 de 3 ciclos menstruais, não tendo crises de enxaqueca noutras ocasiões do ciclo;
  • Enxaqueca relacionada com a menstruação: enxaqueca menstrual que pode coexistir com crises de enxaqueca noutros momentos do ciclo.
Enxaqueca Vesibular

Na enxaqueca vestibular, as crises estão associadas a vertigem. Os doentes com esta forma de enxaqueca têm sintomas vestibulares, isto é, falsa sensação de automovimento, falsa sensação de que o ambiente visual está a girar, flutuar ou sensação de tontura.

Diagnóstico

Não existe nenhum exame específico para diagnosticar a enxaqueca. Para confirmar o diagnóstico, o seu médico irá discutir consigo a sua história clínica (anamnese):

  • Localização e tipo de dor;
  • Início, frequência e duração da dor;
  • Existência de outros sintomas (náuseas ou vómitos, sensibilidade à luz, ao som e aos cheiros);
  • História familiar de enxaqueca.

Adicionalmente…

  • Para excluir outras patologias, deve realizar um exame físico geral e neurológico.
  • Dependendo da história clínica podem ser necessários exames complementares de diagnóstico.
  • Para o diagnóstico de enxaqueca menstrual é recomendado completar um calendário do registo da dor, para 3 ciclos menstruais anotando os dias da menstruação e os dias de dor durante esse período.
  • É recomendável o preenchimento de um calendário da enxaqueca com os dias de dor, a intensidade, a medicação utilizada e os sintomas associados.

CAUSAS E FATORES DESENCADEANTES

A origem da enxaqueca é uma combinação de fatores ambientais e genéticos. Algumas famílias são especialmente propensas a ter enxaqueca uma vez que a genética influencia de forma muito importante a predisposição para esta patologia.

Fatores genéticos:

Estudos científicos identificaram diversas variantes genéticas importantes, que justificam em parte a existência de enxaqueca na mesma família. Por exemplo, estão descritos três genes de transmissão mendeliana associados à enxaqueca hemiplégica (uma forma grave e muito rara de enxaqueca) e, herança poligénica, que envolve a presença de um grupo de genes específicos com diferentes versões (alelos), que interagem entre si provocando a enxaqueca.

Para além dos fatores genéticos, existem uma série de fatores desencadeantes que podem aumentar a probabilidade de desencadear crises de enxaqueca.

Fatores desencadeantes:

Os fatores desencadeantes podem ser internos (do próprio organismo) ou externos (exteriores ao organismo). Os mais comuns incluem:

  • Psicológicos: stress, ansiedade, depressão e emoções fortes.
  • Maus hábitos de sono: dormir demais ou de menos.
  • Desidratação: ingestão insuficiente de água
  • Hormonal: menstruação ou ovulação
  • Dieta:
    • Saltar refeições ou estar longos períodos sem comer e baixos níveis de açúcar no sangue
    • Citrinos
    • Queijos
    • Comidas ricas em nitritos – como enchidos e carnes de charcutaria e utilizados como conservante em alguns alimentos processados
    • Aspartame – adoçante artificial utilizado em algumas bebidas, sobremesas, laticínios, chicletes e produtos diet ou ‘baixos em calorias’
    • Glutamato monosódio – utilizado para realçar o sabor em algumas sopas pré-feitas, caldos, cubos de caldo de carne, temperos prontos, molhos de soja e algumas comidas asiáticas
    • Bebidas alcoólicas (nomeadamente vinho tinto e cerveja ou o consumo excessivo de qualquer bebida alcoólica), tabaco e consumo excessivo de cafeína (café, chás com cafeína ou refrigerantes com cafeína) ou alteração do padrão de consumo de cafeína
  • Farmacológicos: consumo de nitroglicerina, estrogénios, analgésicos (em quantidade excessiva) etc.
  • Alterações repentinas na atividade física.
  • Fadiga/cansaço
  • Jetlag e alterações de rotinas em viagens
  • Dor de cabeça ou dor cervical, de outra origem.
  • Alterações ambientais: mudanças sazonais ou de tempo, alterações na pressão atmosférica, poluição, fumo excessivo.
  • Estímulos sensoriais:
    • Stress visual em resultado da luz solar, exposição prolongada ao ecrã do computador ou outras luzes brilhantes ou intermitentes;
    • Odores intensos: perfume, incenso, produtos de limpeza, fumo do tabaco ou poluição.
    • Ruídos altos e/ou constantes.

Um dos pilares centrais no tratamento de doentes com enxaqueca é precisamente identificar e evitar os fatores desencadeantes, o que pode constituir um desafio quer para o doente quer para o médico que o segue. No entanto, é importante saber que nem todos os fatores desencadeantes são os mesmos para todos os doentes com enxaqueca e estes podem também mudar ao longo da vida. É impossível evitar todos os fatores desencadeantes possíveis, pelo que é importante que cada doente consiga identificar quais são os seus fatores desencadeantes. Evitar os fatores desencadeantes pode reduzir muito significativamente o número de crises de enxaqueca.

As principais dificuldades são as seguintes:

  • Nenhum fator desencadeante é comum a todos os doentes;
  • Raramente um determinado fator desencadeante provoca sempre uma crise no mesmo indivíduo;
  • Uma crise pode ser desencadeada por um ou vários fatores;
  • Alguns fatores desencadeantes também podem funcionar como tratamento (como a cafeína);
  • Por vezes pode ser difícil distinguir os fatores desencadeantes dos sintomas premonitórios;

FACTOS E NÚMEROS:

  • O impacto da enxaqueca na vida profissional dos doentes, e consequente impacto económico na sociedade, é muito elevado, especialmente pelo facto de esta patologia afetar maioritariamente pessoas em idade produtiva e gerar uma enorme perda de horas de trabalho e reduzindo a produtividade. No entanto, a maioria dos doentes faz um esforço adicional para compensar as horas de trabalho perdidas em detrimento do seu tempo pessoal e familiar.
  • O sofrimento causado pela enxaqueca é individual, acarretando custos intangíveis e um impacto significativo, mesmo quando os doentes não estão em crise. Quando não corretamente tratada, a enxaqueca provoca uma redução da qualidade de vida, por medo e antecipação da próxima crise, o que condiciona o doente a evitar participar em atividades laborais, familiares ou sociais, dificuldade em assumir compromissos com consequências emocionais e afetivas.
  • Segundo um estudo realizado em Portugal, cerca de 80% dos doentes com enxaqueca já terá faltado a eventos familiares ou sociais, devido a uma crise de enxaqueca. Mais de 60% dos doentes avaliados neste estudo refere que alterou a sua relação com familiares, amigos e companheiro/a devido à sua doença.
  • A nível global, a enxaqueca é a segunda maior causa de anos vividos com incapacidade em todas as regiões, ambos os géneros e todas as idades, sendo a principal causa de incapacidade por doença neurológica.
  • Cerca de 25% dos doentes com enxaqueca tem depressão e cerca de 50% sofre de ansiedade.
  • A enxaqueca é uma doença neurológica crónica e altamente incapacitante.
  • Cerca de 50% dos doentes necessita de faltar ao trabalho em média 4 dias por mês.
  • A enxaqueca é a doença neurológica mais comum no mundo, afetando cerca de 12 a 15% da população mundial.
  • É mais comum entre os 25 – 55 anos, mas pode afetar todas as fases da vida, incluindo a infância.
  • A enxaqueca é cerca de 3 vezes mais prevalente nas mulheres do que nos homens.

Em Portugal, cerca de 1 em cada 7 pessoas sofrem de enxaqueca, sendo mais frequente do que doenças como a asma ou a diabetes.

As pessoas com enxaqueca perdem em média 5% do seu tempo de vida para a doença.

Sofre de enxaqueca?
Se sofre de enxaqueca ou de outro tipo de cefaleias, junta-te à MiGRA Portugal!
Aqui poderá encontrar uma comunidade de doentes que te poderão apoiar e com quem podes partilhar as tuas dúvidas e dificuldades.

NOVO ASSOCIADO

Quer saber mais sobre cefaleias, aprender a viver com enxaqueca ou aceder a materiais de apoio?

Mais sobre cefaleias
viver com cefaleias
Aceder a materiais de apoio

Ainda tem dúvidas? Pode enviar-nos as suas questões, a MiGRA responde

Colocar Questão

Parceiros

Linha SOS voz amiga.

Linha de apoio emocional e prevenção ao suicídio: 800 209 899