O que é a Cefaleia em Salvas?

A cefaleia em salvas, é uma cefaleia primária, relativamente rara e extremamente dolorosa.

A dor é extremamente intensa e repetitiva e por esse motivo alguns doentes em crise podem ter pensamentos suicidas sendo também muitas vezes denominadas de ‘cefaleias suicidas’.

 Apesar da dor que estas cefaleias causam, o seu diagnóstico pode ser arrastado durante vários anos podendo demorar, em média, cinco anos.

A cefaleia em salvas tem um grande impacto na qualidade de vida dos doentes, tanto do ponto de vista social como profissional.

Factos e Números
  • Afeta os homens 3 vezes mais do que as mulheres.
  • Manifesta-se geralmente, entre os 20 e os 40 anos de idade.
  • É consideravelmente menos frequente que a enxaqueca atingindo cerca de 1 pessoa em cada 1000.
  • Parece ser mais frequente entre os fumadores ou ex-fumadores.
  • Pensa-se que terá uma componente genética uma vez que ter um pai ou um irmão com cefaleia em salvas aumenta o risco de vir a sofrer também desta patologia.
Sintomas e Tipos

Existem muitos tipos diferentes de dor de cabeça, contudo, a dor que é característica da cefaleia em salvas tem geralmente as seguintes características:

  • É extremamente intensa e repetitiva;
  • Atingem habitualmente apenas um lado da cabeça, na zona do olho (zona orbital);
  • Geralmente ocorrem sempre nos mesmos horários;
  • Repetem-se uma ou mais vezes por dia;
  • Podem durar de 15 minutos a 3 horas ocorrendo desde 1 vez em cada dois dias até 8 vezes por dia;
  • Surge habitualmente durante o sono, logo após adormecer ou ao despertar pela manhã;
  • As crises de cefaleia em salvas ocorrem habitualmente na Primavera e no Outono (na altura de solstício e equinócio);
  • A dor de cabeça torna-se muito intensa rapidamente – normalmente em 10 minutos;
  • A dor intensa é habitualmente acompanhada de outros sintomas:
    • Lacrimejo de um olho
    • Pálpebra superior descaída
    • Olho vermelho
    • Pupila do olho mais pequena (miose)
    • Pingo do nariz
    • Inchaço da pálpebra
    • Sensação de congestão nasal
    • Sensibilidade à luz (fotofobia) – raro
    • Sensibilidade aos sons e ruídos (fonofobia) – raro

Durante uma crise, os doentes sentem dificuldade em estar calmos manifestando grande agitação e inquietação. Sendo tão incapacitante, a cefaleia em salvas também pode provocar ansiedade, insónias e depressão.

Do ponto de vista da frequência, a cefaleia em salvas pode apresentar-se na forma:

  • Episódica: quando as crises ocorrem em períodos que duram de 7 dias a 1 ano, separados, por períodos livres de dor de, pelo menos, 3 meses.

Normalmente, os “períodos de salva” duram cerca de duas semanas a três meses, contudo, em alguns doentes estes períodos podem ser mais prolongados.

Aparecem repetidamente na mesma altura de ano com intervalos de um ou dois anos.

  • Crónica: Quando as crises ocorrerem durante mais de um ano sem remissão, ou com remissão por períodos de duração inferior a 3 meses. Cerca de 10-15% dos doentes, têm cefaleia em salvas crónica.

A cefaleia em salvas crónica pode surgir de novo, ou evoluir da cefaleia em salvas episódica. Da mesma forma, também a cefaleia em salvas crónica pode alterar para cefaleia em salvas episódica.

Diagnóstico

Não existe nenhum exame específico para diagnosticar a cefaleia em salvas. Para confirmar o diagnóstico, o seu médico irá discutir consigo a sua história clínica (anamnese):

  • Localização e tipo de dor
  • Início, frequência e duração da dor
  • Existência de outros sintomas (lacrimejo, edema da pálpebra, sudorese da face e da região frontal, congestão nasal ou rinorreia (pingo do nariz), pálpebra descaída, sensação de inquietude ou agitação.)
  • História familiar

Adicionalmente…

  • Para excluir outras patologias, pode haver necessidade de realização de um exame físico geral e neurológico.
  • Dependendo da história clínica podem ser necessários exames complementares de diagnóstico (imagem por ressonância magnética ou tomografia computadorizada)
  • É recomendável o preenchimento de um calendário das cefaleias com os dias de dor, a intensidade, a medicação utilizada e os sintomas associados.
Causas e Factores Desencadeantes

As causas da cefaleia em salvas ainda não são inteiramente conhecidas. Contudo, os padrões da cefaleia em salvas sugerem que o “relógio biológico do organismo” (hipotálamo) desempenha um papel importante.

A cefaleia em salvas parece ter alguma influência genética, uma vez que é mais comum em pessoas de uma mesma família. Os dois fatores desencadeadores/gatilhos atualmente identificados são a mudança brusca de temperaturas e alta altitude

Durante o ciclo de salvas, podemos considerar os seguintes fatores desencadeadores das crises:

  • Consumo de álcool;
  • Tabaco;
  • Alguns medicamentos (por exemplo, nitroglicerina).
  • Alterações dos padrões de sono habituais.
  • Histamina
  • Stress
  • Outros alimentos como chocolate, café, consumo de carnes processadas, enchidos, queijos velhos, dependendo muito de pessoa para pessoa.

Tratamento

  • Atualmente ainda não existe uma cura para a cefaleia em salvas.
  • A abordagem terapêutica na cefaleia em salvas tem como objetivo de aliviar a dor, melhorar a funcionalidade dos doentes, reduzir a frequência das crises e prevenir/limitar a progressão da doença.
  • O seu médico indicará a forma mais adequada de controlar a doença e melhorar a sua qualidade de vida.

No tratamento da cefaleia em salvas, episódica e crónica, podem ser considerados os tratamentos sintomáticos ou preventivos.

Tratamento sintomático ou agudo

  • A medicação sintomática para a crise de cefaleia em salvas tem como objetivo aliviar a dor e parar a progressão do surto.
  • Deve ser tomado o mais cedo possível. Por vezes pode ser difícil, pois a dor de cabeça torna-se muito intensa rapidamente – normalmente em 10 minutos.
  • Por norma os analgésicos comuns que se podem adquirir sem receita tornam-se ineficazes, pois esta é uma dor muito intensa.
  • Com a devida prescrição e aconselhamento médico, poderão ser considerados os seguintes tratamentos:
    • Oxigenoterapia (oxigénio a 100%), que deve ser inspirado numa taxa entre 6 a 12 minutos litros por minuto com máscara normobárica. Este tratamento parece ser eficaz em cerca de 75% dos doentes, sem efeitos secundários e habitualmente suspende a crise por completo ou pelo menos durante alguns dias. Se ao fim de 20 minutos não for eficaz, o tratamento deve ser alterado. A desvantagem deste tratamento é o facto de obrigar o doente a estar sentado e quito, o que para estes doentes, é muito difícil de suportar.
    • Triptanos (Sumatriptano, zolmitriptano)
    • Tártaro de ergotamina
    • Lidocaína, contudo, esta é habitualmente considerada uma terapêutica adicional.
  • Durante as crises, além da medicação sintomática ou aguda, o doente pode aplicar frio ou calor no local da dor, caso esta medida ajude a reduzir a intensidade da dor.
  • Durante os ciclos existem ainda doentes que recorrem à utilização de alucinogénios em pequenas doses, contudo a eficácia desta abordagem não se encontra comprovada e poderá ser perigosa.

 

Tratamento farmacológico preventivo

  • A medicação preventiva para a cefaleia em salvas é utilizada com o objetivo de reduzir a frequência e a gravidade das crises. Contudo, estes fármacos não previnem completamente as crises nem curam a causa subjacente.
  • Este deve ser realizado quando o período da cefaleia em salvas começa e mantê-lo até duas semanas após o término deste episódio.
  • As opções terapêuticas profiláticas são ainda muito limitadas. Podem ser utilizados os seguintes tratamentos:
    • Verapamil (considerado o fármaco de primeira linha, tendo nível de evidência B),
    • Carbonato de Lítio,
    • Valproato/divalproato de sódio,
    • Topiramato,
    • Em casos específicos ou doentes que já tenham falhado estes tratamentos, existem outros medicamentos que poderão ser considerados pelo médico.

Todas estas opções estão associadas a efeitos secundários significativos pelo que há necessidade de uma monitorização próxima por parte do médico que acompanha o doente.

Os doentes refratários ao tratamento farmacológico, isto é, os doentes que não respondem a estas terapêuticas, podem beneficiar com o tratamento cirúrgico.

Para complementa o tratamento poderão ser anda equacionados suplementos como melatonina e magnésio, contudo é importante discutir a utilização destes suplementos com o seu médico.

Medidas complementares

Além da medicação preventiva, os doentes com cefaleias em salva poderão realizar também algumas medidas complementares, tais como:

Sono
  • Manter uma boa rotina de sono. Deitar-se sempre à hora habitual e cumprir um ciclo de sono regular e saudável e evitar dormir sestas durante o dia.
  • Quem tem dificuldade em adormecer, poderá tentar ouvir música calma ou utilizar técnicas de mindfullness, meditação ou relaxamento.
  • É ainda importante evitar a utilização de ecrãs, pelo menos uma hora antes da hora de deitar, para evitar insónias.
Emoções
  • O stress é um fator desencadeante de crises para a maioria dos doentes. Tentar controlar o stress e a ansiedade é muito importante no controlo das crises.
  • Fazer atividades de relaxamento poderá contribuir para aliviar o stress, controlar a ansiedade e relaxar os músculos. Pode experimentar Yoga, meditação, mindfullness ou simplesmente deitar e relaxar ao som de uma música calma. Existem vários vídeos e aplicações que o podem ajudar a aprender estas técnicas.
  • Atividades como ler, dar um passeio a pé e fazer exercício físico também contribuem para controlar a ansiedade e o stress.

Prevenção de suicídio

Devido à extrema intensidade da dor e ao facto de ser repetitiva, alguns doentes com cefaleia em salvas podem ter pensamentos suicidas durante a crise.

Os sinais de alerta de suicídio variam de acordo com a personalidade de cada pessoa. Fique a conhecer os sinais de alerta.

Se estiver a ter pensamentos suicidas, o primeiro passo e o mais importante é obter ajuda de um profissional. Todos os intervenientes têm como objetivo ajudá-lo e apoiá-lo na resolução dos seus pensamentos suicidas.

Se suspeita de alguém que possa estar com pensamentos suicidas, tente entender o que está a acontecer e procure ajuda. Não tenha medo de perguntar à pessoa porque é que está triste, deprimida e se está a pensar em suicídio.

Em ambos os casos, uma boa opção é ligar para a linha de apoio ao suicídio –  SOS Voz Amiga – 213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660 – Diariamente das 16h às 24h.

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